Há livros que não se limitam a contar uma história: eles escavam séculos de silêncio.
Tudo começa com Ndala, arrancada de Angola em 1837 e lançada ao porão de um navio negreiro rumo ao Brasil. No extremo sul do país, entre charqueadas, frio cortante e promessas rasgadas de liberdade, nascerá Velho Becca, herdeiro de uma África que se recusa a morrer. Anos depois, outro oceano é cruzado: italianos embarcam no La Sofia fugindo da fome e chegam a uma terra onde, em vez de sonho, encontram trabalho exaustivo e a constatação de que ali também há brancos explorando brancos — mas nada que se compare à brutalidade reservada aos corpos negros.
Entre essas duas linhagens — a de Becca e a dos Veras — ergue-se a figura sombria de Isidoro, ex-capitão do mato que parece ter atravessado a Abolição sem jamais aceitá-la. Sua violência, seus ódios e suas escolhas lançam uma espécie de maldição que respinga em filhos, netos e bisnetos, atravessando o século XX e alcançando o tempo em que uma médica